sexta-feira, 8 de abril de 2011

Parreira


Contratação
Sempre que tive responsabilidade ou participação na contratação de um treinador para o Internacional, pensei no Parreira como uma das primeiras opções. A razão para isto sempre foi o que ele representou para a idéia de trabalho interdisciplinar no futebol.
Conheci o Parreira em 1996, quando jogávamos o campeonato brasileiro e o Claudio Dienstmann nos colocou em contato com ele. Eu e o Fernando Carvalho viajamos ao Rio numa sexta-feira para conhecê-lo.
Lembro que jogaríamos no domingo no Rio e eu viajaria no sábado. Durante a tarde de sexta-feira precisei ligar para minha esposa e pedir que preparasse minha mala e me desculpasse por não podermos jantar juntos, como havíamos combinado. O que ela me disse, no caminho para o aeroporto, resume o que pensava, já naquela época a respeito do Parreira, dito por alguém que me conhece bem: "... só vou te perdoar, porque sei o que o Parreira representa para tua concepção de futebol...".
Em 2000 o Parreira trabalhava no Fluminense. Mas em 2001 consegui trazê-lo para Porto Alegre. Fiz 3 viagens ao Rio. Na primeira, nunca vou esquecer, que quando o taxi estacionou em frente à casa dele, meu telefone tocou. Era meu amigo Amaury Silveira. Com a gentileza, educação e amizade que o caracterizava me disse, com todo o cuidado, que não queria interferir, mas que se eu quisesse o telefone do Parreira ele tinha para me fornecer, uma vez que talvez buscássemos um treinador que nos desse respaldo para trabalhar durante o campeonato brasileiro. Expliquei para ele que estava no Rio, na frente da casa do Parreira e que faria todo esforço para levá-lo para Porto Alegre, mas que estava fazendo isto em segredo pois esta informação não poderia vazar. Ele não comentou com ninguém. Só depois da contratação que rimos muito da situação.
Na segunda viagem, o Medina foi comigo, onde falamos um pouco mais sobre procedimentos a serem adotados e explicamos o que estávamos fazendo no Internacional.
A terceira viagem foi num sábado e precisávamos fechar a negociação. Saí cedo de Porto Alegre e voltaria à tarde, pois tínhamos jogo no domingo. A negociação não foi longa. O Parreira me disse que queria apostar no que estávamos fazendo e, para meu orgulho, contou que tinha conversado com o Zé Mário. E sabia que todo o combinado seria exatamente o que aconteceria. Jamais conseguiria contratá-lo se a questão financeira estivesse à frente na negociação.
Lembro que quando voltava para o aeroporto, recebi o telefonema de um repórter dizendo terá informação de que eu havia viajado para contratar um treinador. Apesar de desconversar, ele perguntou onde eu estava... Não podia dizer. Mas também não queria mentir. Então disse que estava no litoral, voltando para Porto Alegre. Como estava no Rio de Janeiro e pegaria o vôo em minutos... não menti...

 
Assinatura do contrato
Alguns dias depois o Parreira chegou à Porto Alegre e foi direto para o gabinete da Presidência, onde assinamos o contrato nos termos combinados e efetuamos o pagamento das "luvas" ajustadas, para depois disto ele ser anunciado como nosso treinador.
Isto sempre me pareceu uma obviedade. Mas no futebol não é. Ouvi, diversas vezes, o Parreira dizer publicamente que foi o único clube, durante sua carreira, que procedeu assim.

 
Comprometimento
O comprometimento do Parreira com o clube e com o trabalho foi algo marcante. Poucas vezes ele saia de Porto Alegre para o Rio de Janeiro onde estava sua família. Era sempre o primeiro a chegar aos treinamentos e estava sempre disponível para o que precisássemos. Fôsse para falar da equipe principal ou para um seminário com os profissionais das equipes de base. Sempre tratando todos com educação e igualdade.
Quando acertamos sua contratação, ele me falou de um compromisso que tinha na europa, se estou lembrado na FIFA. Eu sabia deste compromisso e havia, antes da contratação liberado para que ele pudesse participar. Algumas semanas antes ele cancelou sua ida em função da importância do momento para a equipe no campeonato brasileiro.

 
Equipe de trabalho
Conseguimos integrar os profissionais de todas as categorias com a equipe profissional naqueles meses.
Com o Parreira vieram o Moraci Santana e o Jairo Leal.
Com ambos fiz um ótimo relacionamento e até hoje quando o Moraci vem a Porto Alegre faz contato para nos encontrarmos.
O Jairo é, também um profissional fantástico. Profundo conhecedor do futebol, discreto e extremamente LEAL ao Parreira. Passamos algumas tardes de sábado assistindo jogos do campeonato brasileiro e aprendi muito com o Jairo que respira futebol.
Não tenho dúvidas que, caso o Jairo decida um dia ser treinador, terá grande sucesso.
 
Grande momento
Foram muitos os momentos e jogos marcantes. A postura do Parreira, comandando o grupo sem precisar fazer espetáculo à beira do campo ou gritar o tempo todo caracteriza o tipo de liderança que ele exerce e que coincide com o que acredito ser o mais produtivo.
Porém, se puder escolher um momento, que expresse o que aconteceu naqueles meses, não tenho dúvida de citar o nosso último encontro com o grupo de atletas.
Havíamos perdido a classificação em Belo Horizonte. Fícamos na 9ª posição e classificavam 8 clubes. O compromisso do Parreira conosco terminava ali. Informamos aos jogadores que deveriam se reapresentar em determinado dia da semana seguinte para ajustarmos os procedimentos de encerramento do ano.
O Pareira me pediu para estar presente neste dia. Falei, agradeci aos atletas o empenho, informei que eles deveriam comparecer na tesouraria para receber as férias e informamos a data da reapresentação no ano seguinte, já com nova diretoria. Ele (Parreira) pediu para falar e quando começou a dizer o quanto aqueles meses foram importantes e o quanto acreditava no que fizemos, emocionou-se de tal forma que teve dificuldade de concluir o que dizia.
Tive, naquele momento a certeza de que o Internacional não significou apenas "mais um trabalho" para o Parreira.

 
Conclusão
O Parreira por sua competência, sua história e sua postura foi muito importante para que tivéssemos tranquilidade no encerramento do mandato, apesar da oposição convocar o Conselho Deliberativo, antes do início do campeonato, dizendo que levaríamos o Internacional para a segunda divisão.
Lamento, apenas, que um profissional com sua experiência não tenha sido procurado nem mesmo para dar sua leitura e avaliação dos atletas e do rabalho desenvolvido até aquele momento pela direção que assumia. Talvez porque imaginassem que recebiam o vestiário "vazio".

2 comentários:

  1. NANDO DE NOVO HAMBURGO9 de abril de 2011 16:33

    Presidente, parabêns pela vontade em compartilhar conosco destes anos em que vocês estiveram a frente do Colorado.
    Particularmente, detestei vários fatos que ocorreram naqueles anos. O apequenamento do Inter, o paraquedismo do Jarbas Lima, a exposição negativa (cofres vazios, corte de água), a mal condução do caso Dunga. Também sempre lhe achei muito truculento e arrogante, dono da verdade, ao menos esta era a imagem que ficou para mim.
    De qualquer maneira, tiveste muito mais acertos do que erros e isto também deve ser dito.
    Fazendo uma analogia ao Celso Roth, acho que eras parecido com ele. Muito trabalhador e honesto, mas pouco polido na lida com as pessoas. Talvez por isso que tenhas tido tantos inimigos e encontrado resistência em parte da torcida(eu me incluo nesta parte)
    Da minha parte só tenho que reverenci-a-lo, pois dirigiu meu Inter de forma idônea, retirando o tempo da sua família para se dedicar ao clube.
    O mundo é pequeno. Vais voltar a sentar naquela cadeira talvez para que o clube acerte as contas contigo.
    Acho que te devemos algo.

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  2. Nando:

    Tudo precisa ser analisado no contexto histórico que aconteceu.
    O objetivo deste site não é defender posições, mas contextualizar acontecimentos para que eles sejam analisados com justiça.

    Pensei se publicava ou não seu comentário. Não por me comparares ao Celso (quando limitas esta comparação, me chamando de trabalhador, honesto e pouco polido). Porque não tenho certeza se estás errado. Nestes 3 aspectos, prefiro ter má avaliação quanto a "ser polido".

    A razão da minha dúvida é quando falas em reverencia ou "me dever algo".
    Não existe isto. Não sou razão para reverencia e não sou credor de nada.
    Tudo que fiz foi por que o Internacional sempre foi, no mínimo, tão importante para mim quanto para qualquer um dos que me lê.
    O "pagamento" já foi dado com a certeza do dever cumprido.

    Obrigado por acompanhar o site do Inter 2000.

    Fernando Miranda

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