segunda-feira, 9 de maio de 2011

A venda dos direitos federativos de Fábio Rockembach

Para começar a falar na venda dos direitos federativos do Rockembach, pedi ao Dr. Sérgio Juchem que escrevesse algo de sua lembrança a respeito do episódio.


Não cansarei de repetir sobre a importância do Sérgio, do Gustavo Juchem e do Fernando Torres para conseguirmos encaminharmos alguns assuntos. Já falei de alguns. Falarei de outros. O Sérgio, tenho certeza, irá me ajudar a lembrar o episódio da venda do Hurtado (lembram como a torcida gritava o nome dele...Huuurtaaadooo!), que foi outra epopéia.


Abaixo o texto do meu amigo Sérgio:
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Caro Miranda,

A transação envolvendo a venda dos direitos federativos do atleta Fabio Rochemback, do Sport Club Internacional para o F C Barcelona, foi a mais importante da gestão inovadora Fernando Miranda, que permitiu a conclusão do saneamento financeiro do Clube, pois o mandato foi concluído deixando para a nova gestão apenas modesto compromisso com o Refis.

Na época, foi a transação de maior valor absoluto do futebol gaúcho, alcançando a importância total de US$ 12.500.000,00.

Como tudo que é feito com um bom planejamento, característica marcante do Fernando Miranda, a venda foi muito bem preparada desde a vinda à Porto Alegre de um representante do famoso Clube Catalão. Lembro que nos reunimos à noite, não sem antes termos dificuldade de despistar a Imprensa, no Escritório do Agente Jorge Machado, quando assinamos um Protocolo de Intenções com o Barcelona.

As negociações foram longas e profícuas, pois o documento, ainda que preliminar, estimou o valor da venda em US$ 12.500.000,00, circunstância essa que foi decisiva quando do fechamento da negociação.

Duas curiosidades daquela longa noite.

O advogado espanhol se intitulou advogado do Barcelona, mas não comprovou tal condição, como exigiu o Presidente Miranda, que o considerou então, acertadamente, apenas um advogado de Barcelona (palavras do Miranda). Por essa circunstância, o Protocolo firmado entre o Inter e o Barcelona foi assinado pelo Vice Presidente Jurídico do Inter, já que o Barcelona não estava representado por seu Presidente e nem mesmo por um advogado que comprovasse tal condição. Na verdade, a pessoa em causa era advogado do Barcelona, como se constatou posteriormente.

A outra curiosidade é que, ao fim dos trabalhos, às 3h da madrugada, quando saímos para tomar o elevador e as portas deste se abriram, o jornalista “detetive” Flávio Dal Pizzol colocou o microfone diante do Presidente Miranda para falar sobre o objeto daquela reunião.

O Barcelona, ao confirmar o interesse no negócio, propôs que as negociações finais ocorressem em lugar neutro, pois a Imprensa esportiva espanhola é tão ou mais ativa do que a nossa, sugerindo reunião em Paris. Assim foi feito.

Após o sucesso na venda dos direitos federativos do atleta Lúcio para o Bayer Leverkusen, que por sua transparência e por seu fechamento dentro de uma agência bancária de Porto Alegre, significou uma ruptura cultural e de gestão relativamente às práticas até então adotadas, a elaboração do contrato de venda não apresentou dificuldades, tendo estas ficado por conta da própria negociação.

No início da reunião no Hotel Hilton, em Paris, às 9h da manhã, o Gerente Geral do Barcelona propôs o prosseguimento das negociações oferecendo o valor de US$ 10.000.000,00, ou seja, US$ 2.500.000,00 menos do que o valor previsto no Protocolo assinado em Porto Alegre.

O Presidente Miranda e o Jorge Machado levantaram-se da mesa incontinenti, quando foram puxados por mim pelo braço para voltarem a sentar, o que felizmente fizeram. Às 12h, após 3 longas e tensas horas de reunião, nas quais defendemos com todo o denodo o Protocolo firmado em Porto Alegre, com várias interrupções para entendimentos reservados de parte a parte, conseguimos retomar o patamar de US$ 12.500.000,00.

O almoço em conjunto, leve, já transcorreu em clima mais ameno, sinalizando a concreta possibilidade de fechamento do negócio nas bases desejadas pelo Inter.

Durante a tarde, trabalhamos até às 17h, quando então tudo estava resolvido, inclusive o valor devido ao atleta, que foi integrado, em parcelas, em seu contrato com o novo Clube.

A negociação foi, em verdade, tripartite, pois além de Inter e Barcelona, participou o procurador do próprio atleta.

Houve uma grande dificuldade bem ao final, quando os Clubes tinham chegado aos seus respectivos limites em valores e demais condições e ainda faltavam US$ 100.000,00. A solução surgiu naturalmente, quando os representantes do Inter e do Barcelona se olharam e num gesto simultâneo olharam para Jorge Machado, cuja comissão foi naquele momento reduzida em US$ 100.000,00, viabilizando assim a conclusão do negócio.

Foi um dos dias e momentos mais difíceis e emocionantes da minha vida profissional e esportiva.

Porém, se assim o foi para mim, que já tinha alguma experiência profissional em contratos internacionais, para o Presidente Miranda essa emoção foi muito maior e mais intensa.

Dada a responsabilidade do mandato presidencial e considerando como se encontrava o Clube financeiramente quando assumiu o cargo, aquela negociação significou para o Presidente Miranda o coroamento de um processo de gestão que culminou com o zeramento das dívidas do Inter, iniciando um modelo de gestão que deu ao Clube o grande salto de qualidade para viabilizar as grandes conquistas internacionais que se seguiram.

São estes os aspectos que lembrei e entendi que valiam uma referência para te ajudar a lembrar de alguns detalhes.

Cordialmente,

Sergio Juchem
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Vou lembrar mais alguns tópicos e depois vou reproduzir alguns documentos e imagens que tenho comigo.


PRELIMINAR


A negociação começou bem antes. Quando me neguei a romper a palavra que havia dado ao Bayer Leverkusen e negociar o Lucio com o Barcelona. Esta atitude foi lembrada por mim em diversos momentos da negociação do Fábio, quando dizia que manteria a palavra com o Barcelona, mas se eles quisessem reabrir a negociação, pegaríamos um avião no aeroporto de Orly, que enxergávamos da sala onde estávamos reunidos para fechar negócio com um clube italiano que estava nos aguardando.


A DECISÃO DA VIAGEM À PARIS


O documento que assinamos em Porto Alegre, com o advogado "de Barcelona" precisava ser confirmado na semana seguinte, por ambas as partes. Os representantes do Barcelona entraram em contato e pediram que viajássemos para Paris, pois não queriam tumultuar o ambiente em Barcelona na véspera de algum jogo importante, com a intenção de "acertar detalhes". Queriam que o jogador viajasse conosco.


Respondemos:
  1. Que para nós os detalhes estavam acertados;
  2. Que o jogador só sairia de Porto Alegre depois de assinado o contrato;
  3. Que só viajaríamos com a concordância do jogador e com o pagamento das passagens pelo Barcelona;
O mais difícil foi a questão do Fábio não viajar. Mas sabíamos que se o levássemos juntos o poder de barganha do Barcelona ficaria aumentado e teríamos dificuldade para conseguir o melhor preço.

No final concordaram e nos enviaram as passagens em classe executiva, como havíamos exigido.

A VÉSPERA DA VIAGEM

Viajaríamos num domingo, dia que jogaríamos com o Juventude em Porto Alegre. Iríamos ao jogo e direto para o aeroporto.
Na concentração, no sábado, apanhei o documento que o Fábio declarava ter conhecimento da negociação.
Ele estava assinado apenas pelo atleta e faltava a assinatura do pai.
Recebi um telefonema do Ernani Campelo - Rádio Guaíba, que reproduziu para que eu ouvisse a declaração que o pai do atleta acabara de gravar, dizendo que não concordava com a negociação.

Imediatamente subi ao quarto do Fábio e devolvi o documento (que sabia ser dispensável) e disse que cancelaria a viagem do dia seguinte, caso o pai dele não estivesse no dia seguinte às 9:00h no meu escritório para levar o documento assinado. Não para conversar. Apenas para entregar o documento.
Cheguei no escritório 8:30, temendo que ele não aparecesse. 9:00h ele chegou, entregou o documento, apertei sua mão e mantive a viagem.

REUNIÃO CANCELADA EM PARIS

Chegamos no final da manhã ao hotel e nossa reunião estava marcada para 19:00h.
Pouco antes fui para o quarto colocar uma gravata (orientação do Sérgio, contra minha vontade...) e o Sr. Machado foi me procurar dizendo que recebera um telefonema transferindo a reunião para 21:30h, pois os representantes do Barcelona iriam atrasar.

Imediatamente informei que a reunião não seria mais naquela noite e sim no dia seguinte, pois estava muito cansado e não me sentia em condições de negociar.

Descobri que havia um jogo amistoso (sim, na segunda à noite) entre o Paris Saint Germain e o Benfica. E rumores de que seria a estréia do Ronaldinho no Paris Saint Germain. Não podíamos perder um programão destes e...tirar umas fotografias.
Quando saímos (eu, Sérgio e o representante do jogador Mario Rossi) fomos questionados se não estávamos cansados. Não hesitei em dizer que estava cansado para negociar, não para assistir futebol.

SOBRE A NEGOCIAÇÃO

Foi um dos dias mais longos da minha vida. Em diversos momentos tive dúvida se conseguiríamos fechar o negócio. Diversas vezes saímos para ajustar a estratégia e lembro de ter ligado para Porto Alegre e pedir orientação ao Abílio Braga, pois precisaria "descontar" o contrato que previa pagamento parcelado.

O Sérgio já esgotou a história da negociação, no texto acima.

AS HORAS APÓS A NEGOCIAÇÃO

Assim que assinamos o contrato, fomos convidados para jantar com os representantes do Barcelona.
Eu disse que pediria um lanche no meu quarto. Intuia o que sentiria quando ficasse sozinho. Sabia o que representava aquele contrato que acabara de colocar na minha pasta.

Quando fechei a porta do quarto, devo ter chorado uns 30 minutos.
Quando me acalmei comecei a ligar para pessoas importantes para mim e para o clube naquele momento para relatar o que acontecera e afirmar que entregaríamos o Internacional, no final do ano numa situação MUITO diferente da que havíamos recebido.

Vou guardar economizar alguns detalhes para contar aos poucos.

O CONTRATO


Pretendia colocar aqui todo o contrato. Mas não lembrava de uma cláusula de confidencialidade, que não sei ter valor 10 anos depois. Mas para evitar problemas, vai apenas a primeira página...



Abaixo minhas anotações durante a reunião em Paris:


Comprovante depósito primeira parcela


Comprovante pagamento segunda parcela


Hotel Hilton
Em 2003 voltei à Paris e fiz questão de voltar ao Hotel para tirar algumas fotos... 
Abaixo as fotos que estão no álbum de minha família:

A sala onde negociamos

Fachada do Hotel



Fernando Miranda






8 comentários:

  1. Sensacional!

    Como torcedor, e como jornalista, é muito legal conhecer estes detalhes de bastidores de uma negociação tão complicada, e com um clube do tamanho do Barcelona - um dos segundos maiores do mundo...

    Claro que, como colorado, na época fiquei frustrado com a saída do Rochemback. Mas sabia-se que o dinheiro era necessário para o Internacional, e ver como isso mexeu contigo valeu o dia, Miranda.

    Abraços

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  2. Não fosse essa negociação, talvez o Internacional não passasse atualmente de um Juventude da vida...

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  3. Eu lembro de entrevistas da gestão posterior a sua, logo após o jogo contra o Paysandu em 2002, comentando que a situação do time naquele ano se devia principalmente ao fato de que a nova direção assumiu o clube sem nenhum jogador contratado; que o vestiário estava vazio e que tiveram de contratar praticamente um time inteiro.

    Por um lado é verdade, muitos contratos se encerraram em Dez/2001. Mas resumir o ano seguinte dessa maneira é, no mínimo, fazê-lo de uma maneira míope.

    Sua gestão na presidência foi de apenas um ano, numa época que, como você mesmo disse, o Inter nem email tinha! A questão é que a situação do nosso clube estaria infinitamente pior se essa venda (uma das maiores até hoje, sem nem levar em conta qualquer atualização de valores) e outras ações não tivessem sido levadas adiante. 2002 não foi o único ano difícil da vida do Inter, mas sem dúvida pudemos atravessar aquelas dificuldades pisando em um chão muito mais firme!

    Abraço,

    Frederico Canquerini

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  4. Carlos de Capiva11 de maio de 2011 23:13

    Boa noite Presidente.

    Hoje tenho meus bons 27 anos, talvez para a história do clube não tenha visto o magnifico time da decada de 70, quando meu pai, segundo ele e não se cansa de falar, ia para o Beira Rio para ver de quanto o Inter ia ganhar.

    Também com esta idade, passei toda minha época escolar vendo o Grêmio vencer, a ponto de minha vontade ser, em 2006, após a América, retornar ao colégio. Em contrapartida, no auge da minha juventude pude acompanhar coisas maiores do Inter e aproveitei cada titulo.

    Li na terça feira este post e já era tarde preferindo não me manifestar falando qualquer coisa, não que ache que hoje consiga contribuir muito, mas como sempre, falarei de coração.

    O Rochemback hoje gremista declarado foi um dos primeiros bons jogadores que vi no Beira Rio, realmente lembro de jogos dele muito bons, nos quais ele marcava, armava e até gol fazia.

    Lendo o post admirei a boa condução da negociação, levando em consideração as pressões que tu tinhas na época, seja de uma oposição forte, seja de uma pressão por titulos da torcida entre outras.

    Porém ontem eu dirigia rumo ao trabalho quando me deparei pensando no seu post, sobre o que eu tinha lido e até ali tudo bem. Mas admito que começou a bater em mim, novamente, algumas curiosidades que alimentei desde a época da venda, de por que vender nosso melhor jogador? Por que vender aquele que para muitos era o idolo do time?

    É claro que tenho minhas suposições, mas te questiono porque tenho hoje, a possibilidade de responder a pergunta que eu me fazia e que eu mesmo me respondia apenas por suposição, mas por que vender o melhor do time?

    Abraço.

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  5. Muito bom os relatos. Está prestando um grande serviço historico nessas postagens. Parabens.

    Louis Schroder
    www.BlogVermelho.net
    NJ EUA

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  6. Schroder:

    Obrigado por acompanhar o site do Inter 2000, de tão longe.

    Minha determinação com este site está explicitada na abertura do mesmo. Pretendo resgatar a história que vivi, sob meu ponto de vista e dar uma resposta à tentativa de "extinção" de algo que formalmente nunca existiu. O que existiu foi uma motivação muito forte de mudar o "jeito" do clube. E princípios.

    Por isto tenho evitado de publicar comentários como o outro enviado, por ti, hoje.
    A matéria do Juca Kfouri , desta semana, tem sido objeto de diversos comentários que não publiquei.
    Não quero citar nomes, nem procedimentos.
    Diferente de alguns que pensam serem JUÍZES do mundo, não penso assim.
    Algumas vezes penso em "abrir" outro blog para falar destes comportamentos. Mas não tenho, no momento, tempo para isto. E não quero desvirtuar o objetivo do site do Inter 2000.

    Tenho falado, sim, do meu comportamento. E do que vivi.

    Posso garantir que nunca fui remunerado, no exercício da presidência do Internacional. Fui remunerado, sim, no exercício da Liga Sul Minas, após o término de meu mandato. Paguei os impostos e declarei todos meus rendimentos.

    A venda do Lúcio e do Fábio não foram conseqüência de eu ser o maior negociador do mundo. Nem de ter relações em todos os clubes do futebol mundial. Mas posso garantir que os valores negociados passaram integralmente pela contabilidade do Internacional.

    Fernando Miranda

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  7. Carlos:

    Gostaria de vender outro jogador.
    Mas tem o mercado... Nem sempre conseguimos vender quem queremos.
    Os jogadores são COMPRADOS.
    Aí temos que tentar fazer o nosso melhor para conseguir o melhor valor para o clube.

    Grande abraço,

    Fernando Miranda

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  8. Parabéns pela iniciativa de relatar essas coisas de bastidores que nunca ficamos sabendo. Imagina qual ex-presidente de qualquer clube no Brasil pode explicar uma venda dessas como a do Rochemback?
    Roberto Beal - sócio colorado

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